quarta-feira, 6 de março de 2013

Misticismo

 

tarde

MisticismoHá dias, ao passar nas alamedas
Da minha terra, ao darem as trindades,
Pisando folhas, como velhas sedas,
Com os meus olhos cheios de saudades,
Há dias, quando eu fui nem sei por onde,
Entre lírios e tristes açucenas,
Às horas em que o sol de nós se esconde,
E repicam os sinos às novenas,
Há dias, quando eu fui na tarde exangue,
Ouvindo a minha voz interior,
Faziam recordar gotas de sangue
Os derradeiros raios do sol-pôr.
Bendita sejas, tarde harmoniosa,
Tarde da minha fé e do meu desejo,
Branda como uma pétala de rosa,
Ou como o aroma de um antigo beijo.

 


Alfredo Brochado, in "Bosque Sagrado"

segunda-feira, 4 de março de 2013

O dom de ser infinito…


Por muitas vezes a noite acaba por ser a minha melhor companheira. O silêncio que ela traz mesmo em meio a selva de pedra na qual ela resolve surgir é simplesmente fascinante.

Contemplar as estrelas que apesar de serem poucas nessa noite na qual redijo estas breves linhas me faz pensar na imensidão em que vivemos e que, por diversas vezes, não nos damos conta. Em meio as luzes dos longínquos astros que brilham no firmamento as vezes contrastando com as aeronaves que não cessam de cruzar os céus percebo o quão pequeno sou em meio a imensidão da criação.

Tento evitar tais pensamentos pois podem me fazer entrar em parafuso ao imaginar que sou apenas um misero grão na poeira do universo. Mas ao mesmo tempo que percebo que não sou nada diante dessas imensas grandezas que compõe este universo, percebo que dentro desse ser insignificante o Criador ousou colocar uma sede constante do infinito.

É engraçado pensar que ansiamos por algo que não nos é conhecido. Geralmente desejamos algo que vemos, ou que já tivemos posse em algum momento de nossa vida e acabamos por perder. Agora como nós em nossa finitude podemos almejar o infinito? Não tenho pretensões teológicas ou filosóficas, apenas pretensões de exprimir aquilo que trago no mais íntimo do meu ser.

Essa vontade de ser infinito é que me leva a escrever, a brincar com as palavras e perceber que inúmeras são as suas combinações fazendo assim que eu possa ser, por participação, infinito junto com elas. Unir a minha finitude à possibilidade de infinito residente nas palavras me faz perceber que o ato de contemplar aqueles que estão muito longe, ou que são muito maiores do que eu, não me faz pequeno, pelo contrário, me faz grande, imenso! 

Pois assim posso traçar trilhas com palavras e versos que me levam a contemplar esse universo de uma forma sempre nova, sempre diferente. Uma vez unido ao infinito residente nas palavras não existe universo que me faça sentir menor, mas sim uma criação divina que me convida a, através dos versos, tentar conhecê-la permitir que os outros a conheçam.
Assim sigo, traçando os meus versos para muitos sem sentido, mas que me permite experimentar um pouquinho do que é ser infinito!

domingo, 3 de março de 2013

Lacrimosa

Nem sempre uma melodia trágica é sinal de tristeza em nossas vidas. 
Muitas vezes ela é sinal de que algumas dores intimas do nosso coração precisam morrer para assim se abrirem à metamorfose que a vida nos convida. 

Dessa forma aquilo que um dia fez sofrer o mais temente dos filhos de Deus passa a ser um mero capricho da vida que por muito tempo persistiu em atormentar o caminhar do ser humano.


Assim é a vida, um velar-se e desvelar-se de dores que precisam morrer para dar lugar a marcas de vitória que nos lembram de que tudo nessa vida passa, apenas Deus continua...



Para a Patria!


Para a Pátria - Santa Teresa de Jesus
Vamos para o Céu tão belo,Monjas do Carmelo!
Vamos mui mortificadas,Humildes e desprezadas,Sem no gozo por o anelo,Monjas do Carmelo!
Eia! Ao voto de obediência,Jamais haja resistência,Que é nosso fim, nosso anelo,Monjas do Carmelo!
A pobreza é a estrada realQue o Imperador celestialTrilhou com todo o desvelo,Monjas do Carmelo!
Nunca nos deixe de amarNosso Deus, nem de chamar.Sigamos o seu apelo,Monjas do Carmelo!
De amor está se abrasandoO que nasceu tiritando,- Homem de Deus, num só elo -,Monjas do Carmelo!
Vamo-nos enriquecerOnde jamais há de haverPobreza ou qualquer flagelo,Monjas do Carmelo!
Do Pai Elias no bando,Vamo-nos contrariando,Com sua força e seu zelo,Monjas do Carmelo!
Duplo espírito busquemosComo Eliseu, e neguemosNosso querer, com desvelo,Monjas do Carmelo!

sexta-feira, 1 de março de 2013





"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- Me ajuda a olhar!"


(Eduardo Galeano - extraído do Livro dos abraços)